domingo, 4 de agosto de 2013

O Conexo Desconexo





O DESCONEXO









O CONEXO 






O prato branco fumegante em cima da toalha puída e macilenta de algodão, com detalhes bordados em forma de flores vermelhas dentro de cestos de vime, olorava vapor carnil exalado das almondegas ao molho madeira, acompanhadas de arroz cateto selvagem e salada de burgol, cebola, pimentão e tomate. O garfo na mão do filosofo estava suspenso, congelado na profundidade da rede de neurônios. O pensamento maquinava o capítulo XXII do  livro Contribuições À Doutrina Do Sofrimento Do Mundo, de Arthur Schopenhauer. O espirito do philosophe se inundara do pessimismo do ilustre pensador tedesco, estava em plena ataraxia, sem reflexos de mobilidade corporal, apenas atividades criticas e negativas no fluxo e conexões do córtex cerebral.











No lado oposto da cidade, no Instituto do Coração, um cardiologista examinava um diagnóstico produzido pela vanguarda tecnológica, seu pensamento distava alguns quilômetros, buscava uma explicação, uma racionalidade para a diferença entre a assistência médica dada aos pacientes particulares, possuidores de bens  e o oferecido pelo sistema de saúde do governo aos mais necessitados, os sem posses. Eram duas categorias de pacientes:

a) Os donos e beneficiados pelo poder econômico - que recebem toda disponibilidade de equipamentos avançados e métodos supra modernos sem espera.
  
b) Os explorados e subjugados pelas leis confeccionadas em favor do poder econômico e que ficam a merce de um sistema ineficiente, de colegas que apenas estavam interessados em receber "desprezíveis reais" pagos pelo sistema publico, além de ter que esperar horas, dias, meses, anos para serem atendido, quando não morrem na fila.  

O pensamento critico do médico questionava o sistema capitalista: 
- "Será que  em Cuba existiria aquelas distinções? Será que  os homens eram atendidos conforme suas posses, mesmo nas horas mais terríveis, quando todo ser humano deveria ter os mesmo direitos diante a doença? Porque os recursos tecnológicos e métodos modernos só estavam a disposição de um seleto grupo do poder econômico e seus apaniguados"?













O filosofo levou o garfo com um pedaço de almondega condimentada entre os dentes, a inercia começava a se desmanchar, a pimenta extra forte adicionada ao bolo de carne e pão fizeram seus olhos lacrimejarem, uma parte da secreção caiu num granulo de açúcar cristal que uma formiga carregava com grande esforço, com o líquido salgado o produto industrializado da cana de açúcar, que os portuguese e holandeses disputaram há séculos, se dissolveu e o esforço do inseto se tornou em vão. Os sentidos do philosophe despertaram completamente, sua ataraxia se esboroou com um som agudíssimo vindo de uma serralheria da vizinhança. O ferreiro batia o malho num ferro com toda sua força física, extraindo sons que despertavam até almas adormecidas eternamente. O pássaro cardeal se batia na gaiola de arame e madeira, pendurada na porta da serralheria na qual o ajudante saia carregando um copo de aguardente para o ferreiro, nem sem antes bebericar alguns goles em frente a parede interior do galpão que apoiava um calendário de mulheres nuas de uma empresa de pneus.











Uma árvore carregada de caqui, uma planta originária da asia luxuriante e despótica, atrai sábias com seus bicos evoluídos para furar frutas, caçar insetos que emitem seu trinado triste, apesar de hodiernamente os alçapões, fundas e espingardas de chumbinhos estarem abolidas pela geração que nesse instante tecla em frente a uma  computer screen ou cheiram cola na frente de um supermercado abordando clientes para dar suporte ao vício e, ainda, atirados como zombies exercitam a mortificação de seus corpos fumando crack em becos e áreas degradadas junto a cocos humanos de homeless que se limpam com jornais da grande mídia corporativa que defendem os interesses do poder econômico e estão se lixando para a transcrição correta dos fatos num dia qualquer do calendário gregoriano em que a terra completa sua translação indiferente as funções artificiais que os homens cumprem com determinação como  ratinhos de Skinner corroborando a teoria behavorista, enquanto outros dormem em casa de papelão e outros assaltam enquanto um budista e um médium empreendem voo no espaço cósmico usando técnicas paranormais que a guerra fria escondeu a sete chaves...










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