sexta-feira, 27 de junho de 2014

Esse Est Percipi - Eu não sou percebido, logo não existo ou Amanhã pode não ser...




ESSE EST PERCIPI

Eu Não Sou Percebido, Logo Não Existo...






Amanhã pode não ser... David Hume disse "Se o sol nasceu todos os dias até hoje, não quer dizer que amanhã ele vá nascer". A neblina fria da noite laminada nas carnes indigentes entra pela inspiração obrigatória do ser determinado, pelo conjunto de fatores que regem a composição do universo... Não tenho mais deuses, livre-arbítrio, suores de prazer. Apenas ouço mentalmente o bolero de Ravel como um compasso a um fim que se estende na linha medíocre do tempo biológico. Os passos em direção ao abismo não são diferentes aos dados para o cerúleo, pois não existe seres demoníacos, nem angelicais. Cada vez fico mais próximo de George Berkeley, mas um Berkeley, sem deus, sem uma mente universal. Apenas comungo que o fenômeno é construído no epifenômeno por meio dos feixes de percepções oriundos do objeto que nunca teremos conhecimento. O nada alimenta o ser, o ser é o nada na revolução que inverte a pergunte de Heidegger ,"Por que há simplesmente o ente e não antes o nada?". O nada constroem o ser. O ser é fruto da árvore que não temos na floresta de nossos conceitos. A floresta chamada realidade é uma impossibilidade para o homem. Kant ao chegar a esta conclusão se comportou como um membro de um povo primitivo. Em vez, de erguer mitos e tabus, como todos aborígenes, construiu as categorias e o imperativo categórico - para se proteger dos mistérios silvícolas. Os tambores do desespero percutiram na mente idealista kantiana, viu seu mundo desmoronar, seu sentido não encontrar guarida no ser, precisava de melhores argumentos para superar a angustia. Precisava de algo concreto, mesmo que fosse impreciso para que almejasse a Pax in Aeternum. Esta seria sua contribuição para o pequeno mundo burguês da individualidade e da perpetua ambição e da justificativa da propriedade; um conceito particular nascido nas entranhas da irracionalidade - que precisava de uma indumentaria universal, racional...





Vivo do nada na existência do vácuo de noites vazias. Os copos estão vazios, as cartelas foram consumidas, as garrafas estão atiradas no chão existencial do quarto que abriga o nada do ser-ai-no-mundo-do-niilismo de cada dia. Não sou percebido, não existo para o mercado, para a sociedade consumista. As letras tentam compor, organizar o nada em fractais sem fim... Nietzsche é digerido, mas não preciso mais de seus filosofemas, suas alegorias baseadas em sua etimologia da loucura. Agora tenho minha própria loucura do nada. O nada é minha palavra definitiva, da sua repetição depende a existência. A madrugada se estende em direção da aurora que pode não acontecer. Faetonte, filho de Hélios e da ninfa Clímene, pode estar guiando a carruagem de seu pai. Pode estar possuído pelo Complexo de Édipo Suicida e destruir tudo que se relacione com o esplendor paterno. As rédeas dos corcéis em suas mãos podem ser comparadas com os botões nucleares nas mãos dos tiranos, que estão encima desta bola chamada planeta terra. Vou buscar o combustível para alma, enfrentar a noite gelada da patagônia, dos ventos polares que chicoteiam as carnes do nada, que preenchem o niilismo em busca do infinito-deus-nada.... Vou como um esquimó perdido no pólo sul, como um urso branco deslocado no mar boreal, navegando em um pedaço de gelo da Antártida a procura de estupefacientes e álcool infinito em direção ao nada.....  Estou preso ao eterno suplício de Tântalo, ao eterno retorno de Nietzsche, sem poder interferir no meu nada eterno, na repetição infinita do nada se projetando no vazio do niilismo...







O NADA É ETERNO, É BRONZE E CRUEL...




segunda-feira, 23 de junho de 2014

GLOBALIZAÇÃO - De Ho Chi Min a Glauber Rocha...



De Ho Chi Min 
a
Glauber Rocha....




Em 1968, se estabeleceu uma ponte energética, um tele-transporte que tinha uma cabeça no Vietnam e outra em Porto Alegre. Para ser mais preciso, a cabeça no Vietnam ficava no meio da selva em que fuzileiros navais americanos e vietcongues travavam sangrentas batalhas. O sul capitalista contra o norte comunista. O fluxo energético se dava da terra de Ho Chi Min em direção a capital gaúcha, que vivia seus anos de chumbo promovidos pela Ditadura Militar. A ponte de transporte durou átimos de segundo, mas foi suficiente para tele-transportar dois vietcongues das selvas para um cinema na cidade brasileira. A casa cinematográfica exibia Terra em Transe de Glauber Rocha, um dos expoentes do cinema novo no Brasil. Os guerrilheiros comunistas caíram no pátio, nos fundos do cine, portando dois Ak-47 e indumentaria camuflada de marrom e verde. Ouvindo o ruído dos corpos orientais, funcionários foram averiguar o que havia ocorrido. Atônitos, os vietcongues colocaram os fuzis no cérebro dos empregados da casa de exibição cinematográfica. Após momentos de tensão e pânico, ouve um incipiente diálogo que misturava palavras em inglês e mímicas.





Na realidade, não era um cinema comercial e sim uma fachada, um aparelho da VPR, Vanguarda Popular Revolucionária, com fins de dar suporte aos guerrilheiros urbanos que lutavam contra a ditadura. O governo militar começava a fechar o cerco contra os revolucionários tupiniquins. Torturas, sequestros, fuzilamento e jogar guerrilheiros ou supostamente comunistas em alto mar era alguns dos meios que a ditadura se servia para livrar-se dos opositores. Os membros da VPR, assim como de todos outros grupos de luta armada, nutriam um sonho utópico de tomar o poder e tornar a sociedade brasileira mais justa. Era o ar que se respirava nos anos sessenta e no início dos anos setenta - depois do exito de Fidel Castro e Che Guevara em Cuba... Na época, Regis Debray lançava a bíblia da esquerda, Revolução na Revolução; em Paris no movimento de maio/68 - era proibido proibir; em todo mundo pululavam ideias revolucionárias que embalavam as mentes em busca de um mundo melhor. Eram Hippies, beat's, maoístas, trotskistas e um leque amplo de rótulos dos que queriam transformar o mundo pela política, pelas armas, pelo comportamento, pelas drogas, pela música...






Foi depois da última sessão no cinema, que os membros da VPR se reuniram para deliberar sobre os dois vietcongues.  Na mesa redonda copos e cinzeiros fumegantes testemunhavam as facções da esquerda, até então diluída no objetivo comum - ver as divergências  emergirem. A ala maoista queria entrega-los para a ditadura militar; já os trotistas, apesar da divergência figadal com a ala soviética, concordaram a favor de mante-los no cinema até aparecer uma oportunidade de mandá-los ao país de origem, outras tendências - divergiam. Contudo, a ponderação e a solidariedade perduraram, afinal, todos vinham da ideologia marxista e tinham um inimigo prioritário em comum, ou seja, o imperialismo americano. Os vietcongues ficariam no aparelho da VPR, o cinema de fachada, até aparecer a oportunidade de envia-los para casa.






O problema da moradia estava resolvido. Ficariam no porão do cinema, apesar de insalubre e pouco iluminado. Estavam bem melhor acomodados do que os tuneis que cavavam e permaneciam na maior parte do tempo no Vietnam, como verdadeiras toupeiras humanas. A alimentação vinha do restaurante macrobiótico estabelecido no centro de Porto Alegre. Uma vez por semana buscávamos arroz cateto integral e cozinhávamos diariamente para nossos hospedes asiáticos.  A higienização dava-se após o fechamento do cinema, os dois subiam até os toaletes e mantinham os corpos limpos. Alimentados e higienizados, os vietcongues se dedicaram a aprender o idioma português e logo começaram a estabelecer pequenos diálogos com os guerrilheiros tupiniquins.




CORTE NO TEMPO:
Decorreram vinte anos. A estadia dos vietcongues no brasil foi "legalizada". Os escaninhos paralelos da esquerda revolucionária, providenciou  documentos. Já não havia o apetite da revolução social, agora o mundo estava empenhado em acelerar sistemas baseados no silício, em sintaxes de linguagens computacionais, erguer Shopping Centers e esconder os miseráveis nos subúrbios das megalopes.   As drogas agora estavam criminalizadas, alguns ex-hippies  operavam em Wall Street, surgiam os yuppies e o capitalismo estava consagrado no ocidente. Os que processavam ideologias marxistas eram taxados de idiotas da América.  As flores das comunidades alternativas agora eram admiradas nas telas dos primeiros Macintosh. Foi nesse contexto que os dois vietcongues embarcaram no aeroporto de porto alegre em direção ao seu país de origem. Alguns ex-guerrilheiros sobreviventes da mão pesada da ditadura, acompanharam os amigos asiáticos iniciar o voo em direção ao oriente misterioso, da china politicamente comunista e economicamente  capitalista.....








quarta-feira, 4 de junho de 2014

Maxikoan - "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar". Wittgenstein






"Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar".  Wittgenstein





Pensamentos cortam a noite com a navalha fria de um mundo sem sentido. Cada passo neuronal transforma a realidade inalcançável em certezas provisórias. O rio flui por baixo da transparência que o congela. Palavras jogadas ao esmo etimológico pesquisam novas experiências idiomáticas para remover a negação da existência.  O erro foi ter saboreado demais, aprofundado o pensar em busca de leis, que expliquem o universo em expansão desde do Big-Bang. O primeiro passo do homem em direção a humanidade foi um erro ou uma artificialidade que não corresponde ao mundo objetual. Alguns cientistas dizem  que o homem foi expulso do substrato que constituí e move o universo. O homem desenvolveu um estudo, uma biografia da natureza, ou seja, depois de milhares de anos, edificou  a ciência para teorizar sobre a matéria e energia que compõem o cosmo infinito - ou que chamamos de natureza espalhada pelo sem fim desconhecido. Foi outorgado ao homem a missão de  efetivar um grande estudo com o intuito de desvendar todos os mistérios, mitos, leis, equações, números, cálculos e todos artifícios que possibilitem revelar o que somos (homem + natureza). 


Na realidade, o homem e a "humanidade" estão mais perto da auto destruição do que o conhecer o universo. Em cada unidade da "humanidade" temos o incontrolável apetite animal. O que chamamos de racionalidade é apenas um conceito que não encontra paridade nos fenômenos naturais. Somos frutos do acaso e não de um edulcorante livre arbítrio e muito menos filhos diletos de um ser superior. O que chamamos de pensamento, inteligência e racionalidade não passam de fluxos físicos-químicos  dentro do córtex, que reflete os feixes do mundo exterior que entram pelos sentidos. O filosofo e lógico-positivista, Wittgenstein proferiu o enunciado que desmancha a pretensão humana de explicar o universo; e representa a impossibilidade de chegar a uma verdade peremptória:

- "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar".



Os pensadores tão realçados e relevados pela cultura humana, não passam de ingênuos codificadores do incompreensível.  O animal homem caminha há cem mil anos pela superfície do planeta. Cada lapso de tempo que consome e produz seres bípedes-implumes de Platão é recheado de ilusões- com o fim de impedir um suicídio coletivo da humanidade. O antropomorfismo (cultura, ciência, tradição, etc..) serve de estímulo e ópio para o homem sobreviver sua desgraça terrena e única.  Deus é a válvula de escape para a sensação de impotência humana. A religião é a forma de poder em que os mais fortes manipulam o rebanho servil. O estado é o artificio legal para manter o status quo. As filosofias necessitam do estado de hegel para que o lobo predador mau de Hobbes e o símio dócil de Rousseau possam assegurar sua ideologia. O bom e o mau não encontram guarida na natureza, são apenas adjetivos para que postulantes ao poder possam iludir as massas reprimidas. Representam atributos de discursos em busca do poder. A terra não tem sabor, a água não é seca nem molhada, os átomos e sub partículas só existem nas teoria depositadas nos cérebros digitais e orgânicos. Na realidade, a natureza não sabe quem somos, ou melhor, nos mesmos não sabemos quem somos. A natureza existe, mas sua definição é o elemento que faz o homem percorrer o tempo em direção ao nada. O homem é como o cavalo que corre atrás da cenoura pendurada na vara, o cavaleiro põe a frente e por mais que o equídeo corra, a distância entre o seu apetite e a realização, permanecerá a mesma....  




"Whereof one cannot speak, thereof must one be silent."


Wittgenstein 








quinta-feira, 1 de maio de 2014

Pensamento Analógico-Digital-Anáquico: De Proust ao Kaos





Pensamento Analógico-Digital-Anárquico

De Proust ao Kaos



Foi um grande tempo. Morávamos numa rua calçada com ladrilhos diversos. O passeio margeava sobrados antigos mesclados com casas modernas que chegaram junto com a bossa nova. Eram tempos de  Oscar  Niemeyer e de agitação política no Brasil e no mundo. Nós, pequenos imberbes, vivíamos a magia  de tempos infinitos, de pensamentos quentes e coloridos, enquanto o planeta vivia uma guerra fria e batalhas incendiárias  no Vietnam e Korea. Nada nos incomodava, senão a hora de tomar banho - geralmente nossos pais nos buscavam no campo de futebol. As reprimendas eram constantes, quando passávamos algum limite estabelecido, mas nada que estigmatizasse nossos grandes sonhos pueris. Naqueles tempos, mal sabíamos das agruras que encontraríamos no futuro. 



Numa evocação ao passado, talvez a busca do tempo perdido de Proust - À la recherche du temps perdu -  depois de uma crise de nostalgia, resolvemos passar na rua da infância. Resgatar o sonho perdido dentro do pesadelo hodierno. Quiçá, encontraríamos as cadeiras preguiçosas em que jogávamos nossos corpos serelepes para descansar e olhar o infinito bordado de estrelas que ainda não sofriam prejuízos estéticos da mega iluminação moderna e da eletricidade infinita. Também sentiríamos o gosto dos pré-refrigerantes domésticos. Deixaríamos a Gasosa, o Gengibre escorrer lentamente por nossas gargantas de antanho, então, o dream-magic de nossas infâncias penetraria em nossos cérebros digitais. O passado analógico das imensas felicidades se reporiam em nossos corações tão maltratados pelo presente tecnológico.




O presente é o passado mais as circunstâncias que nos cercam. Nós somos pontos de uma linha na evolução, se houvesse alguma falha anterior, não seriamos o que somos hoje. Estamos condenados pelo pretérito e absolvidos pelo determinismo que os defensores do livre arbítrio negam.  O único livre-arbítrio que o homem dispõe é o pensamento. Podemos estimular lembranças e edulcorá-las. Rever conceitos e acrescentar atributos. Criar santos, monstros e odiar ou amá-los. A poesia é fruto do livre-arbítrio, a literatura permite o impossível, que o diga Gabo & Kafka. O sonho é o livre-arbítrio do inconsciente. O vígil é o coordenador determinista de todo livre-arbítrio. Não nego o que escrevi anteriormente, porém somos o joguete de regras que não conhecemos, apenas suspeitamos. Karl Popper nos ensinou que a ciência é provisoria. Os deuses mudam conforme a civilização, a etnia. O pré-socrático, Xenófanes de Cólon, afirmou que se os animais tivessem o dom da pintura, representariam os seus deuses em forma de animais, ou seja, sua própria imagem.





Vejo homens estufarem o peito e orgulhosamente traçarem organogramas e se atribuírem poderes. Economistas discriminarem as classes sociais, criando escalas de valores em que o ter é a graduação para ser considerado um homem de "Bem". A verdade está intimamente ligada ao poder econômico que estampa sua ideologia nos veículos submissos de comunicação. Vejo a população como um rebanho pastando o que o marketing dirigido a alienação ofereceu. Homens vendem suas almas para o vil metal e se confortam na religião. Acreditamos que a humanidade é uma causa perdida, ou seja, como disse o filosofo existencialista Jean-Paul Sartre: - O homem é uma doença. 







domingo, 27 de abril de 2014

A Orelha de Cristiano, o Luso. Van Gogh Surfista.




A Orelha de Cristiano, o Luso.
Van Gogh Surfista.





Caminhava pelas falésias urbanas erodidas pela ação humana deletéria, na realidade, um barranco íngreme artificialmente decorado com grama e plantas exóticas. Observava que no sopé havia empresas de mídia, com seus letreiros vanguardistas, anunciando as maravilhas de uma atmosfera artificial, que só existiam nas telas coloridas e tecnológicas do marketing. Varias escadas em forma de caracol, concreto e aço, davam acesso a comunicação entre a calçada em que meus pés pisavam e o terreno onde estavam estabelecidas as hipermídias. Em uma das escadas notei uma menina e uma senhora com idade avançada. Subiam em direção a calçada. Para minha surpresa, as reconheci. Tratava-se da mãe do meu ex melhor amigo e sua neta.  D. Josefina também me percebeu:

- Oi, meu filho, como vai?

Logo começamos um colóquio. Lembramos de seu filho falecido e de nossa amizade. Dona Josefina, sempre segurando a pequena mão da neta, não conseguiu deter as lágrimas. Dei um abraço para consolar sua dor revivida, mas fui tomado de surpresa quando Dona J. retirou de sua bolsa um vidro e colocou em minhas mãos. Não era um simples vidro, mas sim um recipiente cheio de formol com uma orelha adornada com um piercing. Não tive dificuldade, mesmo impactado pelo inusitado, para distinguir que se tratava da orelha de Cristiano, o luso, meu ex melhor amigo. Consegui conter a repugnação  da cena vangoniana-stephenkinguiana. Depois Dona J. apertou minha mão e com uma voz chorosa e incisiva fez um pedido:

- Meu filho, você era o melhor amigo de Cristiano, o luso. Peço-lhe um grande favor... Não negue para esta velha senhora que perdeu uma parte de sua existência. Ainda bem que você conseguiu sair do caminho da drogadição, infelizmente meu filho pereceu nesta senda...

"Varias vezes tentei demover C., o Luso, da vida barra pesada, mas não tive sucesso. Antes do seu falecimento o encontrei num bar tomando absinto, lendo a poesia dos malditos franceses e cheirando neve" - pensei, enquanto ouvia a velha senhora. Seus olhos dilatados  mostravam o amargor, o sofrimento pela perda. Sua netinha parecia uma indiozinha perdida na selva humana. Parecia não estar entendendo o que acontecia.

- Dona J., como a senhora conseguiu esta orelha...

D. Josefina me interrompeu. Segurou novamente minhas mãos com o rosto suplicante e continuou:

- Meu filho, não me questione, apenas ouça. Está completando cinco anos desde que Cristiano se Foi. Vou resgatar sua memória, prestar-lhe uma homenagem. Estou vindo da Mídia-Memory, uma filmadora especializada em produzir  vídeos sobre a vida de pessoas que alguém quer homenagear. Pedi que fizessem um roteiro sobre a breve existência de Cristiano. Aprovei e achei lindo a forma que desenvolveram a história de C., porém dependo de você para completar este culto.

- O que posso fazer D. Josefina?

- É simples meu filho. Leve este vidro com a orelha de C. até o mar, onde vocês costumavam surfar. Lembro de vocês dois arrumando os equipamentos de surf com entusiasmo. A expressão de felicidade em seus rostos. Peço que preste esta cerimonia. Coloque no mar a orelha de Cristiano, seria como resgatar  seu tempo saudável, de felicidade. Não estou com insanidade alguma, mas um médium  ouviu a  voz de C. e ele fez este pedido...

Não podia dizer não para a velha senhora, afinal Cristiano, o luso, tinha sido meu melhor amigo. Quando concordei com a missão, a fisionomia de Dona J. irradiou satisfação. Dei mais um abraço, passei a mão na cabecinha loura da netinha e despedi-me... 






Olhei para o outro lado da rua, com a orelha dentro do vidro e o vidro dentro da sacola. Vi um simpático bar com mesas na calçada. Pedi uma cerveja para o garçom. Comecei a saborear a cevada. No segundo copo, ouvi um assovio e meu nome vindo da parte interna do bar. Eram Cireneu e Calcides. Convenceram-me a sentar junto a mesa em que bebiam whisky e cerveja.  Eles já estavam altos. Misturavam goles do malte escocês com profundas  absorvidas de cerveja. Calcides e Cireneu eram amigos dos velhos tempos, também conheciam C., o Luso, mais do que conheciam, ainda estavam na velha estrada de chapação. Deixei-me envolver pela atmosfera criada, logo comecei a compartilhar o whisky. Quando você concede um dedo o corpo está comprometido. Fiquei no nível alcoólico de C. & C. e contei o encontro que tive com D. J. Do bar empreendemos uma viagem de taxi até a casa de Calcides. Concordamos fazer um jantar e uma homenagem póstuma ao nosso amigo Cristiano, o Luso. 




Calcides abriu a porta do seu moderno refrigerador e sacou long-necks. Ele foi quem propôs fazer uma janta em homenagem a C., o luso. Com o orgulho potencializado pelo álcool, mostrou um diploma de chefe de cozinha. Rimos muito, aliás eram gargalhadas sem controle. Deixamos ele ir até a cozinha e preparar o "Prato In Memoriam de C., o Luso". Fiquei com Cireneu atirado no sofá ouvindo The Beach Boys. Calcides entrou freneticamente na sala e colocou algumas carreiras de neve em cima de uma mesa de vidro. Consumimos avidamente. E assim se sucedeu durante algum tempo.
Calcides voltou para cozinha uivando como um coiote solitário. Quando retornou trouxe uma especie de fogareiro e uma frigideira e uma garrafa de conhaque jerez de la frontera. Realmente, Calcides tinha habilidades gastronômicas, apesar  das pesadas doses de álcool e neve. Começou a flambar o acepipe dentro da frigideira. Começamos a devorar o prato especial,  ao som da quinta de Beethoven. Terminamos o banquete. Calcides desligou o som e disse que faria um discurso em homenagem a Cristiano, subindo na mesa de vidro, entoou a homenagem:



Excelentíssimos Senhores:

Não estará ele entre nós? Não ouvirá o meu chamado? Tão viva é sua lembrança. Tenho a sensação de vê-lo, de senti-lo dentro de nós. Não acredito que ele se foi, pois ele está presente em nossa memória. Levanto esta long neck em sua homenagem. Digo estas palavras que li no epitáfio de Bob Marley, que reflete a vida de Cristiano:


"Não viva para que a sua presença seja notada,
mas para que a sua falta seja sentida..."


Enquanto esteve presente entre nós foi um cometa, mas hoje sabemos que é uma estrela de  primeira grandeza. Senhores, beberemos mais um gole, tomaremos mais varias garrafas... Beberemos todos os estoques da cidade em homenagem a Cristiano, o Luso... Nada será suficiente para lustrar sua memoria... Vinho, whiski, vodka, absinto e pó que ao pó voltarás... Senhores, encerro este longo discurso em memória a C., o Luso, inspirando-me no dogma da Transubstanciação da Igreja católica, do discurso do pão e do vinho de Jesus Cristo. Prestem atenção senhores nas minhas últimas palavras:

O Acepipe da  orelha que nós comemos é carne de Cristiano para a salvação de nossa existência, para que ele esteja sempre conosco...
O conhaque jerez de la frontera com o qual flambei a orelha de Cristiano será nosso sangue para que ele seja eterno em nossas vidas...

E encerro esta cerimônia com o Réquiem de Mozart....


 






domingo, 20 de abril de 2014

Efeito Casimir




Efeito Casimir





Depois de um longo tempo de convalescença - abri a janela, deixei as ondas de fótons inundarem meu espaço físico restrito. Consegui emergir da virtualidade dos meus pensamentos. Agora era matéria visível. O corpo combalido pela alcoolemia reanima-se, o conjunto de átomos que formavam os membros obedeciam a corrente elétrica vindo do centro ejaculador de ordens biológicas. O olhar de varredura se deparou com copos & livros de nietzsche espalhados pelas trincheiras do quarto revivido. Botelhas de vários gêneros tombadas adquiriam vitalidade aparente. Precisava colocar o exercito desordenado em condições. 






Nada melhor que um copo de whisky para saudar a primavera, não a do calendário, medida pela movimento de translação do planeta, mas sim um estado orgânico que reflete no pensamento. As falanges enferrujadas estão aptas para concluir trabalhos escriturais que vem com o fluxo da consciência. A bebida alcoólica penetra pelo sistema gástrico & logo atinge o córtex. A poesia está escrita com tinta invisível por toda a natureza pura - que não sofreu intervenção do homem.   Coloco as quatros estações de Antonio Vivaldi, facilitada pelo Youtube. Ouço sinais de vidas entrarem pela janela, mas não posso ter mais contatos com este universo artificial. Os pensamentos se aprofundaram muito no período de pré-morte. A incompreensão permeia toda a existência, sou um gerador de confusões e mal-entendidos. Estou sempre em fuga alucinada  pelos escaninhos do que  Heidegger chama de Ser-Aí-No-Mundo (Dasein). O álcool me põe em movimento, só minhas sub-partículas mais intimas sabem do que estou falando...






Não sei contar quantas vezes ouvi:

- Escolha... O álcool ou a vida....

Nesta circularidade de abstemia & vida etílica vou construindo a minha obra. Primaveras e outonos se alternam. Cordeiros & lobos. 
Tropeços, quedas, sangue em todas regiões do corpo. Erguimento, caminhar, respirar fundo e navegar no mundo irreal dos meus pensamentos. As minhas palavras tem uma profundidade semântica que escapa da capacidade de entendimento humano. Não consigo achar sentido na existência. Os felinos são as únicas visitas. São elegantes e preenchem as lacunas do pensar e escrever. Uma animação tímida começa a percorrer o sangue gélido. Em breve um carregamento de álcool se fará presente. Há esperança... 




A última cartada está em stand by. A longa praia no extremo sul da America em breve será o refugio. O corpo desafiará o ambiente inóspito. Os pensamentos disputarão com o vento polar a sobrevivência. Frio extremo, deserto humano, vasta imensidão de oceano que os olhos são insuficientes para ver. A vida difícil, sofrida no ermo será a última solução. A natureza pura e sua cruel pureza terá que me dar élan, impulso, arrebatamento de viver.   Well, por enquanto, vou esperar o carregamento da esperança. Na noite estarei brindando secretamente com os que foram. Minha melhor amiga se foi hoje. A notícia chegou inesperadamente. A estupidez do transito, do homem, a irracionalidade violenta e infinita que habita o corpo de cada ser deste planeta... Limpem as taças, espoquem as rolhas, encham os copos - preciso transcender...



quarta-feira, 2 de abril de 2014

IMEXA - A Poetisa Que Abrigava Dr Jekyll & Mr Hyde Em Sua Alma


IMEXA
Poetisa Que Abrigava Dr Jekyll & Mr Hyde Em Sua Alma


Toda vez que o sapato furava, partia ao meio - literalmente - encerrava-se um ciclo existencial. Depois da queimada irracional de uma fase, advinha outra -  de racionalidade fria, metódica - porém, no abrigo das letras revoltas dos poetas num oceano profundo de insanidade. No refúgio, no intervalo entre a circularidade das fases - a mente era invadida por uma horda de escritores malditos. Sempre estavam presentes - "Les poètes maudits" - Verlaine, Rimbaud, Baudelaire, Mallarmé, etc... A existência de Imexa seguia o fluxo de alternâncias entre a veneta e a sobriedade. A intersecção  entre a dialéctica, podemos até denominar síntese, servia para a poetisa elaborar um balanço escriturado por rimas e verves doidivanas. Seu Sapato de salto alto era o termômetro que indicava o fim de um ciclo. Às vezes, a quebra do salto indicava o fim da fase irracional, mas por outro lado, o aprofundamento no estouvamento, que  só era interrompido diante um furo na sola fashion, o contato da palma do pé com o chão cru da dura realidade. 


Os intervalos eram uma aceleração para fase irracional -  ou a desaceleração para a Bonança. As escrituras poéticas sofriam a influencia do álcool, a degradação do corpo ou uma paixão que não aceitava limites. Imexa com seus cabelos negros, em época de racionalidade, radiava de sua pele morena todos os quebrantos possíveis. Seus olhos Sunshine inspiravam uma sensação de luminosidade, de zen budismo e uma doce empatia das calmarias. O sapato de salto intacto era índice do conjunto de predicados que iluminavam uma paz inefável - que emanava de sua áurea. Sua voz era serena, suas palavras eram simétricas, ritmadas e edulcoradas como a ambrosia que Hebe serve no Olimpo aos deuses.




Na semana passada, Imexa andava quase descalça, seus pés encostavam nas lajes frias do basalto outonal. Sua graça em tempos lógicas era uma mistura das deusas gregas: Atenas e Afrodite. Conseguia harmonizar a beleza e sexualidade (Sex Appeal) com o conhecimento. No entanto, se encontrava em polo oposto, seus cabelos de medusa davam a sua face um beleza insana. Seus dedos e neurônios em hábeis dígitos e fantásticos sinapses preenchiam a tela  do iPhone com poesias libertarias - emergidas no fluxo da consciência e submergidas no absinto, que a fazia naufragar no Café Rimbaud Express. Sua mesa preferida ficava embaixo da árvore exótica, que nem os garções - ou habitues, sabiam especificar seu nome e origem. Seus livros, iPhone e copos da verde bebida dos poetas franceses do século XVIII, iniciavam a ocupação do campo de batalhas etílicas-culturais ao entardecer. Uma luz verde intensa  do solo - ganhava a copa do exótico vegetal. Imexa antes de iniciar o ritual absíntico, bebia veloz e furiosamente duas taças de tequilas, sugando o suco de limão e beijando o sal com os lábios injuriados de avidez poética. Sua alma se retorcia - sua verve ácida expulsa Dr. Jekill. Incorporado Mr Hide, absorve o absinto vorazmente. Imexa inicia a frenética digitação no seu aparelho do genial finado Steve Jobs, a maçã de Isaac Newton. Seus cabelos de medusa se agitam, seus pensamentos se absorvem e jactam-se das sombrias zonas de criatividade do córtex, seus olhos reviram-se num êxtase luciferiano. Os serviçais, que trazem e levam copos de absinto, juram sentir cheiro de enxofre e murmúrios sibilinos do além. O estado de coisas se sucedem por semanas, por meses, até o momento que seus pés nus encostam no chão invernal, no gelo das primeiras geadas sulinas. Sua alma vai perdendo o fogo do Hades. Cerberus abre uma exceção e a conduz ao barco de caronte que a leva novamente ao mundo da Luz. Ela será uma Perséfone, terá que retornar ao Hades, pois inocentemente provou o fruto maldito da poesia francesa.








sábado, 1 de março de 2014

Muros na Crimeia... Muros na Venezuela...



Tropas na Crimeia...  Barricadas na Venezuela...




Muros de Berlim... 

Muros na Crimeia, Muros na Venezuela

Muros na Ucrânia, Muros de Israel

Muros em Fukushima

Muros de Trump


Muros são erguidos com 

vidas & almas...



Os Muros:

Precisam do medo do oprimido

Para acimentar a ideologia opressora...

Tijolo por tijolo

 Os Senhores da Guerra oferecem  seus produtos...

Corpo sobre corpo

Para  expandir oleodutos...

O sangue breu das engrenagens estará garantido...




A colheita está pronta

A política é a do mais forte

do Poder Econômico e conchavos...

Crianças morrerão de fome

Entrementes ao caviar de Davos...




O G-7 erguerá as taças

O mundo mais uma vez foi dividido...

Montem nos seus puros sangues, dirijam suas Ferraris, 

Lamborghinis & Porshes...

O genocídio está liberado...

Bolsonaro in Brasil - Nazismo & Fascismo

Príncipe das Astúrias mate mais um elefante... 

Obama escute mais uma conversa...

Putin prenda mais um ativista...

Cameron sacuda o rabinho para América...

Theresa May beije a mão sanguinolenta de Washington...



As Setes Irmãs podem continuar com seu jogo sujo...

Não há mais limites

Nem paradoxos...

Os muros foram construídos

A velha ordem está de volta... 

Príncipe Charles Crie mais uma ONG...



As Florestas incendeiam

Com a cobiça alheia...

Minerais, vegetais ou mesmo animais...

Vidas humanas não tem a menor importância

A Economia precisa se mover...

Nem que para isso povos sejam dizimados...



Ajoelhem-se diante dos poderosos

Beijem a mão do papa

Ouçam a moral dos seus rabinos

Sigam seus pastores,

ou simplesmente:

A manada com medo de ratos...

O estouro da Boiada...





terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Olivetti lettera 32 - A Sobrevivente do Kaos





Olivetti lettera 32 - A Sobrevivente do Kaos











Uma tarde esturricante na capital mais austral do Brasil. O ventilador joga um ar quente, enquanto bato freneticamente nas Teclas da velha Olivetti lettera 32 - uma sobrevivente das guerras que travei como soldado da escrita e alcoólatra. O velho rádio AM espalha  música erudita - sintonizado na estação da universidade. Felinos saem e entram pela janela do sótão alugado. Uma espelunca simpática, empoeirada, num bairro esquecido, onde árvores centenárias jogam seus galhos cansados ​​em todas as direções. Neste lugar calmo, bucólico e parado no tempo - consigo esquecer os fracassos e jogar palavras no papel em branco. Apesar de ter nascido nesta cidade me sinto um estranho no meio do ar reacionário e discriminatório que domina a parte chamada nobre, que recebe todos os investimento de infra-estrutura, gerado pelo suado imposto das classes menos favorecidas. 


Abro uma lata de biscoitos finos e pego minha identidade e o restante do dinheiro que sobrou do pagamento do aluguel. Coloco minha camisa puída com estigmas do tempo  e a  calça de brim surrada. Cansei de escrever e ler filosofia - vou tomar cerveja... As paredes descascadas e sujas simbolizam a degradação dos habitués do bar periférico. Peço uma cerveja ao bodegueiro. Entre goles - presto atenção nos frequentadores - quem sabe não surja um personagem para um futuro conto.  O assunto entre os frequentadores não poderia ser outro -  futebol. A alienação está impregnada na cabeça da população sulina - Futebol e o Mito do Gaúcho  e a Infame Revolução Farroupilha.  Resolvi não falar nem escrever mais sobre isso, não que tenha medo de ameaças  que recebi, mas é inútil. Não tenho como competir com  os meios de comunicações que  vomitam a  voz do poder e alienação  24 Horas por dia e defendem políticos que abraçam sua Ideologia. Fazem da população um rebanho imitador  e servil que se alimenta dos clichés produzidos pelas corporações econômicas do sul. A refrigeração não é  satisfatória, oferta uma cerveja morna. Resolvi pedir uma garrafa de vodka e gelo no porta-cerveja.  






Paguei o bodegueiro e sai. Olho uma figueira encravada no centro da praça. Sentei em um banco e discretamente comecei a bebericar a vodkca com gelo. Alguns transeuntes olham com ar de reprovação. Estava no centro de uma diminuta comunidade - todos se conheciam e sabiam sobre a vida de todos.  Olhavam-me como uma fruta podre  no cesto de maçãs saudáveis.  Já tinha sido interpelado varias vezes pela polícia comunitária, apesar de ter só alguns meses de domicílio na localidade. Todas vezes perguntavam:  
- Escrever é Profissão?

 - Bem...  Sei que  não é ilegal.  E me pagam para fazer isso.

Depois de algum tempo substituíram a pergunta por um conselho impositivo, agora dizem:


- Não saia da linha... Estamos de olho em você... 


De alguma forma a Comunidade me absorveu. Usavam-me como um paradigma negativo.  Certamente, diziam para seus filhos: "Está vendo aquele vadio magérrimo que passa o dia inteiro lendo, escrevendo e bebendo. Nunca fale com ele, um dia ainda vai morrer atropelado por estar bêbado".  De certa forma tinha orgulho da má fama, a reputação - apesar de negativa, trazia respeito e distância do rebanho servil. Também dava inspiração para preencher o papel em branco de prontidão na Lettera 32. Na realidade, estava satisfeito na pequena localidade que destoava da metrópole. Sentia-me um libertário bêbado, uma usina de escrever que gerava e captava matéria-prima.  Já podia ler minha futura biografia, post-mortem, neste lapso de tempo singelo:



"O mais maldito de todos os escritores da metrópole gaúcha passou alguns anos escondido numa pequena comunidade de Porto Alegre - perdida no tempo. Lá escreveu alguns capítulos de sua obra, entre bebedeiras incomensuráveis e o idílio bucólico da mata atlântica. O povoado apesar de pacato e provinciano, de um certo modo - o acolheu. Com efeito, houve uma especie de simbiose, os habitantes toleravam seus porres, loucuras e solidão, pois tinham a pré-monição que no futuro ele teria sucesso e seus livros certamente iriam se referir a aquele pedaço de terra desengrenado da cronologia do progresso."







sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O Rodoviário


O RODOVIÁRIO



José Acorda. Olha o relógio no criado mudo: 4:00 AM. Na sua cabeça ainda ecoa os tiros da guerra de disputa dos pontos do tráfico na vila. Não tem muito tempo para pensar. Toca suavemente na sua esposa gravida de 7 meses. Tem um longo dia de trabalho pela frente - dirigir intensamente sob o sol escaldante do verão porto alegrense. Antes, porém, vai deixar Maria no Posto de Saúde há alguns quilômetros de distância. Amargam trinta minutos na parada. Embarcam no ônibus. Cumprimenta o colega que faz sua primeira viagem em direção ao centro histórico da cidade - um projeto do atual governo municipal que junto com a especulação imobiliária expulsa as classes de baixa renda para os confins sem estrutura.  





No Posto de Saúde - uma longa fila desafia sua paciência. A realidade é dura. Maria diz para José não se preocupar:

-Vai ficar tudo bem. Pode ir trabalhar. Cuido do nosso filhinho...

José contrariado e humilhado pelos serviços deficientes de saúde respira fundo e espera mais uma vez o ônibus diante um poste que sinaliza a parada de ônibus. Embarca num coletivo. A preocupação com Maria vai dividir seus pensamentos com o estado de greve que a  assembleia da categoria dos rodoviários declarou. Senta junto ao cobrador:

- Pois é velho tá difícil trabalhar com este calor...

- Pois é José. Estes veículos sem manutenção, sem ar-condicionado e nossa carga horária é para deixar qualquer um doente.

- Sabe... Minha esposa está grávida, acabei de deixa-la no Posto de Saúde. Nosso Plano Médico da Empresa não cobre o minimo...

- Pior ainda - nosso Vale Refeição. Não compra nem mais o leite das crianças.

- Vai na assembleia na noite?

- Vou José. Nunca gostei de parar, mas a situação é crítica. O salário não dá mais para viver.

- Também mudei de opinião, depois de saber que os patrões financiam as campanhas dos políticos para aumentar o valor da passagem e nos pagar esta miséria. 

- A Comissão de Greve disse que as empresas de ônibus também financiam os programas dos  meios de comunicações. Deve ser por isso que eles estão sempre contra nós.


José chegou na garagem da empresa. Colocou o crachá na camisa azul. Seu supervisor lhe chamou:

- José... Preciso que tu toque mais 4 horas hoje. O Pedro está com os rins lhe arrancando suspiros de dor. Está sentado esperando atendimento no setor de urgência do hospital - desde ontem a noite.

- Já sei... Minhas horas-extras vão para o banco de horas. Até hoje não consegui compensar nenhuma.

- Não gosto disto também, mas tenho família, tenho que me sujeitar.

6:30 AM - José dá a partida no ônibus. Já dos primeiros passageiros ouve as reclamações que junto com o transito caótico vai lhe deixar estressado:

- Moço... Estou meia-hora na parada. Como demora...

E assim transcorre o dia... Finalmente chega a hora de recolher o veiculo. Na garagem se une aos companheiros que pronunciam:

- Chega de Exploração. 

- Queremos Salário.

- O Trabalhador Unido Jamais Será Vencido...

A assembleia decide pela greve. Os meios de comunicações corporativos imediatamente começam a guerra de versões espúrias para enfraquecer o movimento. Os patrões são recebidos pela prefeitura nos gabinetes com ar-condicionado e água mineral gelada. Nos corredores se ouvem gargalhadas animadas. O movimento pró-greve  marcha pelas ruas da capital gaucha. José nutre a esperança ao lado dos companheiros por dias melhores. Eles são trabalhadores que batalham e não tem medo de adversidades. Maria está em seus pensamentos, enquanto palavras de ordens ecoam pelas ruas...





A luta é grande mas a vitoria é certa....






Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.

Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.

§ 1º - A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.

§ 2º - Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei.