quinta-feira, 1 de maio de 2014

Pensamento Analógico-Digital-Anáquico: De Proust ao Kaos





Pensamento Analógico-Digital-Anárquico

De Proust ao Kaos



Foi um grande tempo. Morávamos numa rua calçada com ladrilhos diversos. O passeio margeava sobrados antigos mesclados com casas modernas que chegaram junto com a bossa nova. Eram tempos de  Oscar  Niemeyer e de agitação política no Brasil e no mundo. Nós, pequenos imberbes, vivíamos a magia  de tempos infinitos, de pensamentos quentes e coloridos, enquanto o planeta vivia uma guerra fria e batalhas incendiárias  no Vietnam e Korea. Nada nos incomodava, senão a hora de tomar banho - geralmente nossos pais nos buscavam no campo de futebol. As reprimendas eram constantes, quando passávamos algum limite estabelecido, mas nada que estigmatizasse nossos grandes sonhos pueris. Naqueles tempos, mal sabíamos das agruras que encontraríamos no futuro. 



Numa evocação ao passado, talvez a busca do tempo perdido de Proust - À la recherche du temps perdu -  depois de uma crise de nostalgia, resolvemos passar na rua da infância. Resgatar o sonho perdido dentro do pesadelo hodierno. Quiçá, encontraríamos as cadeiras preguiçosas em que jogávamos nossos corpos serelepes para descansar e olhar o infinito bordado de estrelas que ainda não sofriam prejuízos estéticos da mega iluminação moderna e da eletricidade infinita. Também sentiríamos o gosto dos pré-refrigerantes domésticos. Deixaríamos a Gasosa, o Gengibre escorrer lentamente por nossas gargantas de antanho, então, o dream-magic de nossas infâncias penetraria em nossos cérebros digitais. O passado analógico das imensas felicidades se reporiam em nossos corações tão maltratados pelo presente tecnológico.




O presente é o passado mais as circunstâncias que nos cercam. Nós somos pontos de uma linha na evolução, se houvesse alguma falha anterior, não seriamos o que somos hoje. Estamos condenados pelo pretérito e absolvidos pelo determinismo que os defensores do livre arbítrio negam.  O único livre-arbítrio que o homem dispõe é o pensamento. Podemos estimular lembranças e edulcorá-las. Rever conceitos e acrescentar atributos. Criar santos, monstros e odiar ou amá-los. A poesia é fruto do livre-arbítrio, a literatura permite o impossível, que o diga Gabo & Kafka. O sonho é o livre-arbítrio do inconsciente. O vígil é o coordenador determinista de todo livre-arbítrio. Não nego o que escrevi anteriormente, porém somos o joguete de regras que não conhecemos, apenas suspeitamos. Karl Popper nos ensinou que a ciência é provisoria. Os deuses mudam conforme a civilização, a etnia. O pré-socrático, Xenófanes de Cólon, afirmou que se os animais tivessem o dom da pintura, representariam os seus deuses em forma de animais, ou seja, sua própria imagem.





Vejo homens estufarem o peito e orgulhosamente traçarem organogramas e se atribuírem poderes. Economistas discriminarem as classes sociais, criando escalas de valores em que o ter é a graduação para ser considerado um homem de "Bem". A verdade está intimamente ligada ao poder econômico que estampa sua ideologia nos veículos submissos de comunicação. Vejo a população como um rebanho pastando o que o marketing dirigido a alienação ofereceu. Homens vendem suas almas para o vil metal e se confortam na religião. Acreditamos que a humanidade é uma causa perdida, ou seja, como disse o filosofo existencialista Jean-Paul Sartre: - O homem é uma doença. 







domingo, 27 de abril de 2014

A Orelha de Cristiano, o Luso. Van Gogh Surfista.




A Orelha de Cristiano, o Luso.
Van Gogh Surfista.





Caminhava pelas falésias urbanas erodidas pela ação humana deletéria, na realidade, um barranco íngreme artificialmente decorado com grama e plantas exóticas. Observava que no sopé havia empresas de mídia, com seus letreiros vanguardistas, anunciando as maravilhas de uma atmosfera artificial, que só existiam nas telas coloridas e tecnológicas do marketing. Varias escadas em forma de caracol, concreto e aço, davam acesso a comunicação entre a calçada em que meus pés pisavam e o terreno onde estavam estabelecidas as hipermídias. Em uma das escadas notei uma menina e uma senhora com idade avançada. Subiam em direção a calçada. Para minha surpresa, as reconheci. Tratava-se da mãe do meu ex melhor amigo e sua neta.  D. Josefina também me percebeu:

- Oi, meu filho, como vai?

Logo começamos um colóquio. Lembramos de seu filho falecido e de nossa amizade. Dona Josefina, sempre segurando a pequena mão da neta, não conseguiu deter as lágrimas. Dei um abraço para consolar sua dor revivida, mas fui tomado de surpresa quando Dona J. retirou de sua bolsa um vidro e colocou em minhas mãos. Não era um simples vidro, mas sim um recipiente cheio de formol com uma orelha adornada com um piercing. Não tive dificuldade, mesmo impactado pelo inusitado, para distinguir que se tratava da orelha de Cristiano, o luso, meu ex melhor amigo. Consegui conter a repugnação  da cena vangoniana-stephenkinguiana. Depois Dona J. apertou minha mão e com uma voz chorosa e incisiva fez um pedido:

- Meu filho, você era o melhor amigo de Cristiano, o luso. Peço-lhe um grande favor... Não negue para esta velha senhora que perdeu uma parte de sua existência. Ainda bem que você conseguiu sair do caminho da drogadição, infelizmente meu filho pereceu nesta senda...

"Varias vezes tentei demover C., o Luso, da vida barra pesada, mas não tive sucesso. Antes do seu falecimento o encontrei num bar tomando absinto, lendo a poesia dos malditos franceses e cheirando neve" - pensei, enquanto ouvia a velha senhora. Seus olhos dilatados  mostravam o amargor, o sofrimento pela perda. Sua netinha parecia uma indiozinha perdida na selva humana. Parecia não estar entendendo o que acontecia.

- Dona J., como a senhora conseguiu esta orelha...

D. Josefina me interrompeu. Segurou novamente minhas mãos com o rosto suplicante e continuou:

- Meu filho, não me questione, apenas ouça. Está completando cinco anos desde que Cristiano se Foi. Vou resgatar sua memória, prestar-lhe uma homenagem. Estou vindo da Mídia-Memory, uma filmadora especializada em produzir  vídeos sobre a vida de pessoas que alguém quer homenagear. Pedi que fizessem um roteiro sobre a breve existência de Cristiano. Aprovei e achei lindo a forma que desenvolveram a história de C., porém dependo de você para completar este culto.

- O que posso fazer D. Josefina?

- É simples meu filho. Leve este vidro com a orelha de C. até o mar, onde vocês costumavam surfar. Lembro de vocês dois arrumando os equipamentos de surf com entusiasmo. A expressão de felicidade em seus rostos. Peço que preste esta cerimonia. Coloque no mar a orelha de Cristiano, seria como resgatar  seu tempo saudável, de felicidade. Não estou com insanidade alguma, mas um médium  ouviu a  voz de C. e ele fez este pedido...

Não podia dizer não para a velha senhora, afinal Cristiano, o luso, tinha sido meu melhor amigo. Quando concordei com a missão, a fisionomia de Dona J. irradiou satisfação. Dei mais um abraço, passei a mão na cabecinha loura da netinha e despedi-me... 






Olhei para o outro lado da rua, com a orelha dentro do vidro e o vidro dentro da sacola. Vi um simpático bar com mesas na calçada. Pedi uma cerveja para o garçom. Comecei a saborear a cevada. No segundo copo, ouvi um assovio e meu nome vindo da parte interna do bar. Eram Cireneu e Calcides. Convenceram-me a sentar junto a mesa em que bebiam whisky e cerveja.  Eles já estavam altos. Misturavam goles do malte escocês com profundas  absorvidas de cerveja. Calcides e Cireneu eram amigos dos velhos tempos, também conheciam C., o Luso, mais do que conheciam, ainda estavam na velha estrada de chapação. Deixei-me envolver pela atmosfera criada, logo comecei a compartilhar o whisky. Quando você concede um dedo o corpo está comprometido. Fiquei no nível alcoólico de C. & C. e contei o encontro que tive com D. J. Do bar empreendemos uma viagem de taxi até a casa de Calcides. Concordamos fazer um jantar e uma homenagem póstuma ao nosso amigo Cristiano, o Luso. 




Calcides abriu a porta do seu moderno refrigerador e sacou long-necks. Ele foi quem propôs fazer uma janta em homenagem a C., o luso. Com o orgulho potencializado pelo álcool, mostrou um diploma de chefe de cozinha. Rimos muito, aliás eram gargalhadas sem controle. Deixamos ele ir até a cozinha e preparar o "Prato In Memoriam de C., o Luso". Fiquei com Cireneu atirado no sofá ouvindo The Beach Boys. Calcides entrou freneticamente na sala e colocou algumas carreiras de neve em cima de uma mesa de vidro. Consumimos avidamente. E assim se sucedeu durante algum tempo.
Calcides voltou para cozinha uivando como um coiote solitário. Quando retornou trouxe uma especie de fogareiro e uma frigideira e uma garrafa de conhaque jerez de la frontera. Realmente, Calcides tinha habilidades gastronômicas, apesar  das pesadas doses de álcool e neve. Começou a flambar o acepipe dentro da frigideira. Começamos a devorar o prato especial,  ao som da quinta de Beethoven. Terminamos o banquete. Calcides desligou o som e disse que faria um discurso em homenagem a Cristiano, subindo na mesa de vidro, entoou a homenagem:



Excelentíssimos Senhores:

Não estará ele entre nós? Não ouvirá o meu chamado? Tão viva é sua lembrança. Tenho a sensação de vê-lo, de senti-lo dentro de nós. Não acredito que ele se foi, pois ele está presente em nossa memória. Levanto esta long neck em sua homenagem. Digo estas palavras que li no epitáfio de Bob Marley, que reflete a vida de Cristiano:


"Não viva para que a sua presença seja notada,
mas para que a sua falta seja sentida..."


Enquanto esteve presente entre nós foi um cometa, mas hoje sabemos que é uma estrela de  primeira grandeza. Senhores, beberemos mais um gole, tomaremos mais varias garrafas... Beberemos todos os estoques da cidade em homenagem a Cristiano, o Luso... Nada será suficiente para lustrar sua memoria... Vinho, whiski, vodka, absinto e pó que ao pó voltarás... Senhores, encerro este longo discurso em memória a C., o Luso, inspirando-me no dogma da Transubstanciação da Igreja católica, do discurso do pão e do vinho de Jesus Cristo. Prestem atenção senhores nas minhas últimas palavras:

O Acepipe da  orelha que nós comemos é carne de Cristiano para a salvação de nossa existência, para que ele esteja sempre conosco...
O conhaque jerez de la frontera com o qual flambei a orelha de Cristiano será nosso sangue para que ele seja eterno em nossas vidas...

E encerro esta cerimônia com o Réquiem de Mozart....


 






domingo, 20 de abril de 2014

Efeito Casimir




Efeito Casimir





Depois de um longo tempo de convalescença - abri a janela, deixei as ondas de fótons inundarem meu espaço físico restrito. Consegui emergir da virtualidade dos meus pensamentos. Agora era matéria visível. O corpo combalido pela alcoolemia reanima-se, o conjunto de átomos que formavam os membros obedeciam a corrente elétrica vindo do centro ejaculador de ordens biológicas. O olhar de varredura se deparou com copos & livros de nietzsche espalhados pelas trincheiras do quarto revivido. Botelhas de vários gêneros tombadas adquiriam vitalidade aparente. Precisava colocar o exercito desordenado em condições. 






Nada melhor que um copo de whisky para saudar a primavera, não a do calendário, medida pela movimento de translação do planeta, mas sim um estado orgânico que reflete no pensamento. As falanges enferrujadas estão aptas para concluir trabalhos escriturais que vem com o fluxo da consciência. A bebida alcoólica penetra pelo sistema gástrico & logo atinge o córtex. A poesia está escrita com tinta invisível por toda a natureza pura - que não sofreu intervenção do homem.   Coloco as quatros estações de Antonio Vivaldi, facilitada pelo Youtube. Ouço sinais de vidas entrarem pela janela, mas não posso ter mais contatos com este universo artificial. Os pensamentos se aprofundaram muito no período de pré-morte. A incompreensão permeia toda a existência, sou um gerador de confusões e mal-entendidos. Estou sempre em fuga alucinada  pelos escaninhos do que  Heidegger chama de Ser-Aí-No-Mundo (Dasein). O álcool me põe em movimento, só minhas sub-partículas mais intimas sabem do que estou falando...






Não sei contar quantas vezes ouvi:

- Escolha... O álcool ou a vida....

Nesta circularidade de abstemia & vida etílica vou construindo a minha obra. Primaveras e outonos se alternam. Cordeiros & lobos. 
Tropeços, quedas, sangue em todas regiões do corpo. Erguimento, caminhar, respirar fundo e navegar no mundo irreal dos meus pensamentos. As minhas palavras tem uma profundidade semântica que escapa da capacidade de entendimento humano. Não consigo achar sentido na existência. Os felinos são as únicas visitas. São elegantes e preenchem as lacunas do pensar e escrever. Uma animação tímida começa a percorrer o sangue gélido. Em breve um carregamento de álcool se fará presente. Há esperança... 




A última cartada está em stand by. A longa praia no extremo sul da America em breve será o refugio. O corpo desafiará o ambiente inóspito. Os pensamentos disputarão com o vento polar a sobrevivência. Frio extremo, deserto humano, vasta imensidão de oceano que os olhos são insuficientes para ver. A vida difícil, sofrida no ermo será a última solução. A natureza pura e sua cruel pureza terá que me dar élan, impulso, arrebatamento de viver.   Well, por enquanto, vou esperar o carregamento da esperança. Na noite estarei brindando secretamente com os que foram. Minha melhor amiga se foi hoje. A notícia chegou inesperadamente. A estupidez do transito, do homem, a irracionalidade violenta e infinita que habita o corpo de cada ser deste planeta... Limpem as taças, espoquem as rolhas, encham os copos - preciso transcender...



quarta-feira, 2 de abril de 2014

IMEXA - A Poetisa Que Abrigava Dr Jekyll & Mr Hyde Em Sua Alma


IMEXA
Poetisa Que Abrigava Dr Jekyll & Mr Hyde Em Sua Alma


Toda vez que o sapato furava, partia ao meio - literalmente - encerrava-se um ciclo existencial. Depois da queimada irracional de uma fase, advinha outra -  de racionalidade fria, metódica - porém, no abrigo das letras revoltas dos poetas num oceano profundo de insanidade. No refúgio, no intervalo entre a circularidade das fases - a mente era invadida por uma horda de escritores malditos. Sempre estavam presentes - "Les poètes maudits" - Verlaine, Rimbaud, Baudelaire, Mallarmé, etc... A existência de Imexa seguia o fluxo de alternâncias entre a veneta e a sobriedade. A intersecção  entre a dialéctica, podemos até denominar síntese, servia para a poetisa elaborar um balanço escriturado por rimas e verves doidivanas. Seu Sapato de salto alto era o termômetro que indicava o fim de um ciclo. Às vezes, a quebra do salto indicava o fim da fase irracional, mas por outro lado, o aprofundamento no estouvamento, que  só era interrompido diante um furo na sola fashion, o contato da palma do pé com o chão cru da dura realidade. 


Os intervalos eram uma aceleração para fase irracional -  ou a desaceleração para a Bonança. As escrituras poéticas sofriam a influencia do álcool, a degradação do corpo ou uma paixão que não aceitava limites. Imexa com seus cabelos negros, em época de racionalidade, radiava de sua pele morena todos os quebrantos possíveis. Seus olhos Sunshine inspiravam uma sensação de luminosidade, de zen budismo e uma doce empatia das calmarias. O sapato de salto intacto era índice do conjunto de predicados que iluminavam uma paz inefável - que emanava de sua áurea. Sua voz era serena, suas palavras eram simétricas, ritmadas e edulcoradas como a ambrosia que Hebe serve no Olimpo aos deuses.




Na semana passada, Imexa andava quase descalça, seus pés encostavam nas lajes frias do basalto outonal. Sua graça em tempos lógicas era uma mistura das deusas gregas: Atenas e Afrodite. Conseguia harmonizar a beleza e sexualidade (Sex Appeal) com o conhecimento. No entanto, se encontrava em polo oposto, seus cabelos de medusa davam a sua face um beleza insana. Seus dedos e neurônios em hábeis dígitos e fantásticos sinapses preenchiam a tela  do iPhone com poesias libertarias - emergidas no fluxo da consciência e submergidas no absinto, que a fazia naufragar no Café Rimbaud Express. Sua mesa preferida ficava embaixo da árvore exótica, que nem os garções - ou habitues, sabiam especificar seu nome e origem. Seus livros, iPhone e copos da verde bebida dos poetas franceses do século XVIII, iniciavam a ocupação do campo de batalhas etílicas-culturais ao entardecer. Uma luz verde intensa  do solo - ganhava a copa do exótico vegetal. Imexa antes de iniciar o ritual absíntico, bebia veloz e furiosamente duas taças de tequilas, sugando o suco de limão e beijando o sal com os lábios injuriados de avidez poética. Sua alma se retorcia - sua verve ácida expulsa Dr. Jekill. Incorporado Mr Hide, absorve o absinto vorazmente. Imexa inicia a frenética digitação no seu aparelho do genial finado Steve Jobs, a maçã de Isaac Newton. Seus cabelos de medusa se agitam, seus pensamentos se absorvem e jactam-se das sombrias zonas de criatividade do córtex, seus olhos reviram-se num êxtase luciferiano. Os serviçais, que trazem e levam copos de absinto, juram sentir cheiro de enxofre e murmúrios sibilinos do além. O estado de coisas se sucedem por semanas, por meses, até o momento que seus pés nus encostam no chão invernal, no gelo das primeiras geadas sulinas. Sua alma vai perdendo o fogo do Hades. Cerberus abre uma exceção e a conduz ao barco de caronte que a leva novamente ao mundo da Luz. Ela será uma Perséfone, terá que retornar ao Hades, pois inocentemente provou o fruto maldito da poesia francesa.








sábado, 1 de março de 2014

Muros na Crimeia... Muros na Venezuela...



Tropas na Crimeia...  Barricadas na Venezuela...




Muros de Berlim... 

Muros na Crimeia, Muros na Venezuela

Muros na Ucrânia, Muros de Israel

Muros em Fukushima

Muros de Trump


Muros são erguidos com 

vidas & almas...



Os Muros:

Precisam do medo do oprimido

Para acimentar a ideologia opressora...

Tijolo por tijolo

 Os Senhores da Guerra oferecem  seus produtos...

Corpo sobre corpo

Para  expandir oleodutos...

O sangue breu das engrenagens estará garantido...




A colheita está pronta

A política é a do mais forte

do Poder Econômico e conchavos...

Crianças morrerão de fome

Entrementes ao caviar de Davos...




O G-7 erguerá as taças

O mundo mais uma vez foi dividido...

Montem nos seus puros sangues, dirijam suas Ferraris, 

Lamborghinis & Porshes...

O genocídio está liberado...

Bolsonaro in Brasil - Nazismo & Fascismo

Príncipe das Astúrias mate mais um elefante... 

Obama escute mais uma conversa...

Putin prenda mais um ativista...

Cameron sacuda o rabinho para América...

Theresa May beije a mão sanguinolenta de Washington...



As Setes Irmãs podem continuar com seu jogo sujo...

Não há mais limites

Nem paradoxos...

Os muros foram construídos

A velha ordem está de volta... 

Príncipe Charles Crie mais uma ONG...



As Florestas incendeiam

Com a cobiça alheia...

Minerais, vegetais ou mesmo animais...

Vidas humanas não tem a menor importância

A Economia precisa se mover...

Nem que para isso povos sejam dizimados...



Ajoelhem-se diante dos poderosos

Beijem a mão do papa

Ouçam a moral dos seus rabinos

Sigam seus pastores,

ou simplesmente:

A manada com medo de ratos...

O estouro da Boiada...





terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Olivetti lettera 32 - A Sobrevivente do Kaos





Olivetti lettera 32 - A Sobrevivente do Kaos











Uma tarde esturricante na capital mais austral do Brasil. O ventilador joga um ar quente, enquanto bato freneticamente nas Teclas da velha Olivetti lettera 32 - uma sobrevivente das guerras que travei como soldado da escrita e alcoólatra. O velho rádio AM espalha  música erudita - sintonizado na estação da universidade. Felinos saem e entram pela janela do sótão alugado. Uma espelunca simpática, empoeirada, num bairro esquecido, onde árvores centenárias jogam seus galhos cansados ​​em todas as direções. Neste lugar calmo, bucólico e parado no tempo - consigo esquecer os fracassos e jogar palavras no papel em branco. Apesar de ter nascido nesta cidade me sinto um estranho no meio do ar reacionário e discriminatório que domina a parte chamada nobre, que recebe todos os investimento de infra-estrutura, gerado pelo suado imposto das classes menos favorecidas. 


Abro uma lata de biscoitos finos e pego minha identidade e o restante do dinheiro que sobrou do pagamento do aluguel. Coloco minha camisa puída com estigmas do tempo  e a  calça de brim surrada. Cansei de escrever e ler filosofia - vou tomar cerveja... As paredes descascadas e sujas simbolizam a degradação dos habitués do bar periférico. Peço uma cerveja ao bodegueiro. Entre goles - presto atenção nos frequentadores - quem sabe não surja um personagem para um futuro conto.  O assunto entre os frequentadores não poderia ser outro -  futebol. A alienação está impregnada na cabeça da população sulina - Futebol e o Mito do Gaúcho  e a Infame Revolução Farroupilha.  Resolvi não falar nem escrever mais sobre isso, não que tenha medo de ameaças  que recebi, mas é inútil. Não tenho como competir com  os meios de comunicações que  vomitam a  voz do poder e alienação  24 Horas por dia e defendem políticos que abraçam sua Ideologia. Fazem da população um rebanho imitador  e servil que se alimenta dos clichés produzidos pelas corporações econômicas do sul. A refrigeração não é  satisfatória, oferta uma cerveja morna. Resolvi pedir uma garrafa de vodka e gelo no porta-cerveja.  






Paguei o bodegueiro e sai. Olho uma figueira encravada no centro da praça. Sentei em um banco e discretamente comecei a bebericar a vodkca com gelo. Alguns transeuntes olham com ar de reprovação. Estava no centro de uma diminuta comunidade - todos se conheciam e sabiam sobre a vida de todos.  Olhavam-me como uma fruta podre  no cesto de maçãs saudáveis.  Já tinha sido interpelado varias vezes pela polícia comunitária, apesar de ter só alguns meses de domicílio na localidade. Todas vezes perguntavam:  
- Escrever é Profissão?

 - Bem...  Sei que  não é ilegal.  E me pagam para fazer isso.

Depois de algum tempo substituíram a pergunta por um conselho impositivo, agora dizem:


- Não saia da linha... Estamos de olho em você... 


De alguma forma a Comunidade me absorveu. Usavam-me como um paradigma negativo.  Certamente, diziam para seus filhos: "Está vendo aquele vadio magérrimo que passa o dia inteiro lendo, escrevendo e bebendo. Nunca fale com ele, um dia ainda vai morrer atropelado por estar bêbado".  De certa forma tinha orgulho da má fama, a reputação - apesar de negativa, trazia respeito e distância do rebanho servil. Também dava inspiração para preencher o papel em branco de prontidão na Lettera 32. Na realidade, estava satisfeito na pequena localidade que destoava da metrópole. Sentia-me um libertário bêbado, uma usina de escrever que gerava e captava matéria-prima.  Já podia ler minha futura biografia, post-mortem, neste lapso de tempo singelo:



"O mais maldito de todos os escritores da metrópole gaúcha passou alguns anos escondido numa pequena comunidade de Porto Alegre - perdida no tempo. Lá escreveu alguns capítulos de sua obra, entre bebedeiras incomensuráveis e o idílio bucólico da mata atlântica. O povoado apesar de pacato e provinciano, de um certo modo - o acolheu. Com efeito, houve uma especie de simbiose, os habitantes toleravam seus porres, loucuras e solidão, pois tinham a pré-monição que no futuro ele teria sucesso e seus livros certamente iriam se referir a aquele pedaço de terra desengrenado da cronologia do progresso."







sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O Rodoviário


O RODOVIÁRIO



José Acorda. Olha o relógio no criado mudo: 4:00 AM. Na sua cabeça ainda ecoa os tiros da guerra de disputa dos pontos do tráfico na vila. Não tem muito tempo para pensar. Toca suavemente na sua esposa gravida de 7 meses. Tem um longo dia de trabalho pela frente - dirigir intensamente sob o sol escaldante do verão porto alegrense. Antes, porém, vai deixar Maria no Posto de Saúde há alguns quilômetros de distância. Amargam trinta minutos na parada. Embarcam no ônibus. Cumprimenta o colega que faz sua primeira viagem em direção ao centro histórico da cidade - um projeto do atual governo municipal que junto com a especulação imobiliária expulsa as classes de baixa renda para os confins sem estrutura.  





No Posto de Saúde - uma longa fila desafia sua paciência. A realidade é dura. Maria diz para José não se preocupar:

-Vai ficar tudo bem. Pode ir trabalhar. Cuido do nosso filhinho...

José contrariado e humilhado pelos serviços deficientes de saúde respira fundo e espera mais uma vez o ônibus diante um poste que sinaliza a parada de ônibus. Embarca num coletivo. A preocupação com Maria vai dividir seus pensamentos com o estado de greve que a  assembleia da categoria dos rodoviários declarou. Senta junto ao cobrador:

- Pois é velho tá difícil trabalhar com este calor...

- Pois é José. Estes veículos sem manutenção, sem ar-condicionado e nossa carga horária é para deixar qualquer um doente.

- Sabe... Minha esposa está grávida, acabei de deixa-la no Posto de Saúde. Nosso Plano Médico da Empresa não cobre o minimo...

- Pior ainda - nosso Vale Refeição. Não compra nem mais o leite das crianças.

- Vai na assembleia na noite?

- Vou José. Nunca gostei de parar, mas a situação é crítica. O salário não dá mais para viver.

- Também mudei de opinião, depois de saber que os patrões financiam as campanhas dos políticos para aumentar o valor da passagem e nos pagar esta miséria. 

- A Comissão de Greve disse que as empresas de ônibus também financiam os programas dos  meios de comunicações. Deve ser por isso que eles estão sempre contra nós.


José chegou na garagem da empresa. Colocou o crachá na camisa azul. Seu supervisor lhe chamou:

- José... Preciso que tu toque mais 4 horas hoje. O Pedro está com os rins lhe arrancando suspiros de dor. Está sentado esperando atendimento no setor de urgência do hospital - desde ontem a noite.

- Já sei... Minhas horas-extras vão para o banco de horas. Até hoje não consegui compensar nenhuma.

- Não gosto disto também, mas tenho família, tenho que me sujeitar.

6:30 AM - José dá a partida no ônibus. Já dos primeiros passageiros ouve as reclamações que junto com o transito caótico vai lhe deixar estressado:

- Moço... Estou meia-hora na parada. Como demora...

E assim transcorre o dia... Finalmente chega a hora de recolher o veiculo. Na garagem se une aos companheiros que pronunciam:

- Chega de Exploração. 

- Queremos Salário.

- O Trabalhador Unido Jamais Será Vencido...

A assembleia decide pela greve. Os meios de comunicações corporativos imediatamente começam a guerra de versões espúrias para enfraquecer o movimento. Os patrões são recebidos pela prefeitura nos gabinetes com ar-condicionado e água mineral gelada. Nos corredores se ouvem gargalhadas animadas. O movimento pró-greve  marcha pelas ruas da capital gaucha. José nutre a esperança ao lado dos companheiros por dias melhores. Eles são trabalhadores que batalham e não tem medo de adversidades. Maria está em seus pensamentos, enquanto palavras de ordens ecoam pelas ruas...





A luta é grande mas a vitoria é certa....






Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.

Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.

§ 1º - A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.

§ 2º - Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Kairós Kαιρός - A Eternidade do Pensamento



Kairós  Kαιρός 

A Eternidade do Pensamento

Finalmente - Sentei. Um dia cansativo por não ter feito nada. É verdade que tivesse feito algo, também seria um dia inútil e cansativo, com o agravante de ter modificado alguma coisa de concreto que me rodeia. 

A garrafa não está vazia... 

Tenho Algo a fazer...



A medida que o homem foi se desvinculando da natureza, sua capacidade de agir com o próprio corpo foi se tornando escassa. Por meio da inteligência desenvolveu ferramentas que lhe poupam trabalho, inclusive fabricando alimentos mais caloríficos que lhe dá mais autonomia de tempo entre uma refeição e outra. Possibilitando a dedicação a arte e técnica, pois abreviou ações vitais que antes ocupavam quase todo seu tempo vígil. Tudo flui, Panta Rei, já disse Heráclito - Observando a natureza.



Não quero a volta a caverna, mas também não quero me tornar silício e sangue sintético ou palavras e corrente elétrica... Porque só compreendemos o sentido da vida quando estamos prestes a morrer? Não importa a idade, a morte nos move, tanto quanto a adrenalina. Os dedos na terra é fundamental para podermos ser, ser no sentido filosófico, ontológico. Não adianta ficarmos a existência encima de teclas e celulose; precisamos as experiências da vida para depois descrever, metodizar.





A rotina alcoólica e a física quântica permitiu enxergar coisas que os sóbrios ignoram. Algumas vezes, mesmo de forma inconsciente, consegui chegar a singularidade de Deleuze. Ver que tudo que existe tem a mesma base material e é movido pelas quatros forças que fazem o deus de Nietzsche dançar. A diferença veio com a alcoolemia crítica e o estudo de física de Newton. Relembro uma vez que disse a um filosofo acadêmico que minha mente era selvagem. Conseguia pensar selvagemente Kant, Descartes e todos os racionalistas. Ele respondeu autoritariamente:

-Você quer pensar? Então, entre na academia e faça filosofia, não se pode pensar selvagemente...





Então, lembrei-me de Meinong - o filosofo que acreditava que os objetos não existentes fora dos conceitos - que não encontram realidade - devem existir em algum lugar do universo. Um unicórnio deve existir em algum lugar do infinito universo, algo muito parecido com os multi universos da Teoria das Cordas. Alexius Meinong foi classificado por Bertrand Russel como a mente selvagem. O alcoolismo me liberou do que Deleuze chamava de ‘burocratismo fundamental’ que habita as universidades, que tenta formalizar o rio de Heráclito, que tenta estancar a imaginação. A eternidade do pensamento deve existir dentro da Teoria das Cordas que prevê a existência de 11 dimensões e universos paralelos, além de conciliar a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade e explica tudo no universo. As palavras que escrevo estão a procura de sentido. Jogo-as ao vento na esperança de que achem sua semântica. Algo parecido com as flamulas budistas adejando, espalhando com o vento seus versos de sabedoria pela natureza. 





Pela força dessa farta doação,
Que eu me torne um Buda para o benefício dos seres vivos;
E, por minha generosidade, liberte
Todos os que não foram libertados pelos Budas anteriores.
Geshe Kelsang Gyatso






segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Confeitaria Paraísos Artificiais







Confeitaria Paraísos Artificiais 





Os confeitos de haxixe decoravam a camada alva de açúcar do doce branquíssimo, belo e sedutor como o nariz de Cleópatra. O glacê de açúcar, suco de limão e clara de ovos ornamentava a forma meia-esfera. O doce era feérico e por trás do vidro diáfano atraia a atenção de forma carismática, parecendo ter vida própria. No balcão de lanches fumegavam taças de porcelana branca. Pareciam pequenos navios a vapor sendo bebericados por titãs de terno e gravata, em intervalos regulares, preenchidos por colóquios dos mais diversos teores. Agora tinha virado paixão irrefreável, encantamento. Solicitei a balconista de avental verde:

- Por favor, gostaria daquele doce alvo como a neve eterna do Everest. 

Em segundos, estava com o manjar envolvido em guardanapos. Os lábios úmidos derretiam a camada doce e absorviam os pedacinhos de haxixe. Ao sair da confeitaria o neon do letreiro fez atentar para o nome da casa de doces:

Paraísos Artificiais



Uma pessoa parecidíssima com Charles Baudelaire, pelo menos com as fotos de sua biografia, estava encostada na parede amarela do prédio da esquina. O amarelo rebrilhava em função da incidência das luzes de sódio que invadiam a noite. A esquina era simpática, porém tinha um ar de decadência, de sonho americano perdido:

- Psiu...  Você poderia me dar um pedaço deste hidromel sólido?

Já havia comido a metade do doce alvíssimo com confeites de haxixe. Reparei no traje uma característica dos poetas do século XIX, em frança. Com todo respeito e escrúpulo perguntei:

- Você é um mendigo?

- Não Monsieur ... Sou apenas um revolucionário da poesia, deslocado no tempo cronológico. Não me leve a mal, senti saudades dos doces de antanho confeitados com haxixe.


Mentalmente evoquei Les Poètes maudits: Rimbaud, Verlaine, Baudelaire, Antonin Artaud... Fiz mais... Voltei a confeitaria Paraíso Artificiais e comprei mais meia duzia dos doces alvíssimos e uma garrafa de vinho involucrada em um saco de papel reciclável. Convidei "Baudelaire" para sentar no banco verde da praça. Postes estilos londrinos iluminavam árvores de origens desconhecidas. Comemos alguns doces e demos alguns goles no vinho. Meu companheiro de viagem apontou o dedo para flores de aspectos malignos. Nas pétalas podíamos ver rostos diabólicos com expressões terríveis. Por momentos senti um calor subir pelas pernas e queimar meu cérebro. Olhei para o lado e vi Baudelaire transfigurar o rosto - uma expressão demoníaca se apossou de sua face. Joguei os doces e o vinho para o alto e corri sem olhar para trás.



Quando parei de correr já estava na avenida iluminada. Os faróis dos automóveis se decompunham em cores que penetravam e atravessavam meu corpo. Ao longe vi um vulto estranho, parecido com Baudelaire. Não tive dúvida, comecei a correr. Chocava-me com pessoas nas calçadas. Quando me dei conta, estava diante uma igreja. Algumas pessoas vestidas de um branco puríssimo na porta central do templo faziam sinais com a mão. Acenavam para mim ir até elas. Fui carregado por esses anjos humanos até o altar. O Bispo aspergiu água benta no meu corpo, levantou um crucifixo de prata e pronunciou:



Exorcizo te, omnis spiritus immunde, in nomine Dei (X)
Patris omnipotentis, et in noimine Jesu (X) Christi Filii ejus, Domini et Judicis nostri, et in virtute Spiritus (X)
Sancti, ut descedas ab hoc plasmate Dei (name),
quod Dominus noster ad templum sanctum suum vocare dignatus est, ut fiat templum
Dei vivi, et Spiritus Sanctus habitet in eo.
Per eumdem Christum Dominum nostrum, qui venturus est judicare vivos et mortuos, et saeculum per ignem.





segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Mat's Homens - Hamburguer de Deus




Mat's Homens - Hamburguer de Deus







No horizonte, na linha reta da estrada víamos uma torre brilhar intensamente. O Sol refletia um imenso ícone de alumínio - simbolizando a grandiosidade do engenho humano. Chegamos no portal da cidade, um  ingente arco de aço e concreto, que no alto estampava três palavras em vermelho sanguíneo:

Hambúrguer, Progresso & Deus


Estávamos atrasados. Participaríamos da licitação para aquisição de gigantescos moedores de carne. Paramos o carro na cancela. Logo vieram dois homens indumentados com macacões vermelho e amarelo. Fomos identificados e autorizados a prosseguir em direção a única empresa da cidade. Chegamos ao prédio imponente da estatal de hambúrguer e sua imensa e complexa estrutura metálica que roçava o cerúleo. Fomos recebidos de forma simpática pelos executivos da industria. Informaram que eramos os únicos  a participar do concurso de aquisição das máquinas. Sentamos em cadeiras confortáveis e apresentamos nosso orçamento. O responsável pelas compras abriu o envelope e sorriu positivamente. Entre cafés e conversas animadas - os funcionários nos comunicaram que estava fechado o negócio. Encerrado as formalidades da aquisição dos moedores de carne, fizemos uma visita pelas instalações da fábrica de hambúrguer. Olhamos por uma grande janela de vidro  e vimos  engrenagens, máquinas funcionando, sob o comando da sala de controle. Toda a linha de produção era robotizada e ordenada por meio de computadores. Um cano de aço inoxidável espirrava carne moída. A cor era de um vermelho diferente da carne bovina. Perguntamos ao diretor de produção qual o motivo daquela tonalidade. Ele alegou que era devido ao tempero:



- Esse é o motivo do sucesso da estatal em ser líder imbatível na área de hambúrguer. O condimento é o segredo, assim como a coca-cola tem sua formula hermeticamente guardada, temos a nossa. 


Não tivemos acesso  apenas as divisões da câmara frigorifica - que guardava a matéria-prima  e condimentação, pois segundo os funcionários ali estava o Know-How, o busílis do sucesso.







Fomos convidados para o happy-hour . O sol já não iluminava totalmente a torre, o entardecer já se fazia presente. Comemos os deliciosos hambúrgueres acompanhados de cerveja belga. A maioria dos servidores eram simpáticos e solícitos. Conversamos sobre banalidades e demos boas risadas. Porém a noite se aproximava e tínhamos um longo caminho a percorrer para casa. Estávamos felizes, ganharíamos uma excelente comissão pela venda. Levamos  caixas térmicas com hambúrgueres e cervejas para a viagem de volta. Resolvemos beber logo que saímos da Estatal e sua imensa torre de alumínio, observamos um gigante prédio cinza sem janelas, que  tinha passado desapercebido. Exercitamos nossa imaginação para saber qual a funcionalidade de tal construção.





A velocidade nos afastava da cidade dos hambúrgueres. Na realidade, se resumia a grande torre metálica, alguns imponentes prédios governamentais e uma vila que servia de moradia aos funcionários. Diferentemente da nossa vinda, havia um carregado trafego de ônibus robustos com as janelas gradeadas em direção a fábrica. Lembrou-nos veículos que transportam  presos. Outro mistério que não conseguimos desvendar. Paramos para urinar, ouvíamos gritos desesperadores junto com os motores que cortavam o asfalto em direção a industria. Deliberamos encostados no automóvel e com as mãos portando cervejas. Estaríamos delirando ou eram realmente gritos humanos.  Nossa curiosidade etílica ativou nossa coragem.  Nada justificava aqueles veículos com centenas, milhares de pessoas. Tudo era automatizado, não havia mais que duzentos funcionários, não precisavam de mais mão-de-obra:


- Porque aquelas pessoas gritando desesperadamente dentro dos veículos em direção a estatal?







Esperamos a noite se asseverar e o fluxo na rodovia zerar. Iniciamos o caminho da nossa investigação. Descemos um quilometro antes do pórtico para não sermos notados pelos guardas. Conseguimos abrir a porta principal com uma gazua eletrônica universal, que nos daria acesso  a todas instalações. Entramos numa sala enorme - o show-room - uma parede aproximadamente de  cinquenta metros era ocupada por moderníssimos freezeres com vidros diáfanos,  expondo os diversos tipos de hambúrgueres e seus variegados temperos. Passamos o show room e entramos num corredor extenso que não tínhamos  estado durante a visita. Havia varias portas de metais reluzentes, apesar da pouca iluminação. Na primeira porta uma placa na parte superior, acima da trave, dizia:  Condenados por Assassinato. Na segunda porta outra placa com os dizeres: Condenados por Subversão. Na terceira: Indigentes. Na quarta: Revolucionários...  E assim foram se sucedendo as portas e suas placas pelo enorme corredor. A gazua digital descodificou a criptografia de uma das portas.  Vimos uma esteira com mais de vinte metros se estender até um funil, que na sua parte mais estreita caberiam dois homens com folga. Sua extremidade apontava para a entrada do moedor de carne e suas lâminas extremamente afiadas de inoxidável. Abrimos mais quatro portas e todas tinham o mesmo equipamento.  Perdemos a noção do tempo, olhamos para o relógio e a madrugada já dava sinais de cansaço. Zarpamos da fabrica. Não queríamos acreditar no que tínhamos presenciado. Chegamos ao carro e partimos em alta velocidade. Fizemos um juramento -não comentaríamos o que vimos com ninguém.   Foi uma espécie de juramento de sangue entre adultos. Não presenciamos nem um crime. Os indícios não provam nada, além disso iriamos receber uma polpuda comissão. Certamente se tratava de uma nova escola de administração, algo tipo Silicon Valley, que usava o humor negro para descontrair os funcionários altamente capacitados.






Semanas depois, estávamos reunidos na sala de vendas e marketing da nossa empresa. Como de costume os jornais estampavam suas matérias sensacionalistas. Porém nos chamou a atenção as manchetes que estampavam na capa:

          GOVERNO CONSEGUIU RESOLVER SUPER LOTAÇÃO DOS PRESÍDIOS.

PARTIDO DO GOVERNO ELIMINOU A POBREZA NO PAÍS.

PROGRAMAS SOCIAIS DO GOVERNO ACABARAM COM O ANALFABETISMO, A FOME & MORADORES DE RUA.


Uma sensação estranha tomou conta de nossas mentes. Como explicar aquelas manchetes. A economia continuava igual ou pior ao governo anterior. Não havia nem um plano de distribuição de renda. Os investimentos em educação e controle de natalidade eram inexistentes. Simplesmente nos olhamos e em uníssono gritamos e vomitamos:


Mat's Homens - Hamburguer de Deus